Um convite ao retrocesso

EM: 12 de maio de 2017

A agenda cheia de eventos, o último lançamento do cinema que ainda não vimos, o livro do momento que nem mesmo compramos. Restaurantes badalados nos quais nunca pisamos, a loja nova-iorquina que abriu aqui e sequer demos uma passadinha.

O tratamento de pele, o clareamento dos dentes, o pilates pra alongar tudo, a zumba pra queimar, o crossfit porque está na moda. De repente a casa que fizemos com tanto carinho (e obviamente suor) fica às moscas, não há tempo pra um sofá, doses de nadismo, risos por risos e tudo mais dessas coisas dignas de no flashs, no likes e no check-ins. Porque a melhor parte de estar lá é estar e não mostrar.

Impossível ir a todos os lugares ao mesmo, satisfazer a todas as expectativas, atingir todas as metas impostas pelos outros. Mas que metas? Que outros? Nem sei, nem tu. Seguimos todos nesse baile de fazer o que esperam, sem sacar que para eles, quem espera somos nós.

E de repente tudo que mais queríamos nem sabemos mais. O fluxo segue, a ausência cresce… De vida, de plenitude, de simplicidade. Os pés no mato, o abraço bom, comida de vó, piadas ardidas ao redor da mesa. Um choro, joelho ralado, cochilo após o almoço, uma oração, uma visita.

Que filme era mesmo o que tínhamos que assistir pra não ficar de fora? Que brisa boa, que liberdade. Como pude um dia querer entrar? Quero mais é aqui fora ficar. O lugar do pouco que é muito e do menos que é mais. O espaço do aparente retrocesso que traz o maior dos sucessos: a paz de existir sem tantas exigências e a coragem de ser inteiro a seu próprio modo.

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