Maria Clara

EM: 24 de março de 2017

Esta semana uma amiga muito querida perdeu, do dia para a noite, o amor de sua vida para um infarto fulminante. Não houve tempo para um adeus digno do tamanho daquele amor gigante. Não houve tempo para dizer-lhe mais coisas, perguntar outras ou para “simplesmente” aconchegar-se em seus braços e sentir o calor do seu corpo. O sopro que um dia o fez nascer se fora ali, diante dos seus olhos, sem pedir licença.

Toda vez que algo assim acontece tão perto de nós, a reflexão, além da dor, toma conta da alma. Os porquês sem resposta, os medos, as angústias. A sensação de que em qualquer dos próximos minutos a invasão pode ser aqui, aí. Lembro-me de meu pai dizendo a vida toda que choramos em um funeral muito mais por nós mesmos que por aquele que se foi, e é verdade. A dor imensa em imaginar-se sem a pessoa amada, e a sensação da “proximidade da mortandade”, tão estudada por Erik Erikson, ao constatar que junto àquele querido, sucumbe também uma parte imensa de mim.

Mas não vim falar da morte, acredite. Roberta, minha amada amiga a quem chamo de prima, traz no ventre a maior das heranças: a vida. Maria Clara, que deve nascer a qualquer instante ( talvez agora mesmo enquanto escrevo este texto) vem cheia de alegria, energia, risos, sorrisos e encantos.  Despida da dor da ausência, vem plena, inteira. Inteireza tal, que será balsamo a todos os feridos pela falta do amado que partiu. Uma cura em forma de gente. Um amor em forma de fôlego. A certeza concreta da presença do seu pai querido. A paz.

Impossível não aprender com tudo isso, não tentar ser melhor. O que deixaríamos hoje ao partir? As sementes que plantamos darão frutos de paz ou de dor? O quanto de nós ficaria, viveria e geraria vida de geração em geração? Clarinha é agora sinônimo de legado, e de coragem. A coragem de permanecer. Em cada partida há um pedaço de chegada, de algo novo, de esperança.

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