Já não é preciso sofrer

EM: 19 de maio de 2017

“Eu não podia ter feito isso! Não podia ter pisado na bola!” Pensamento bom e até mesmo produtivo para alguém que tem cometido os mesmos erros repetidamente e já passou da hora de consertar isso. Mas muito cruel quando é dito por uma pessoa como Paulo, um cara todo regrado que dá sempre conta de tudo e de todos, sucesso profissional, marido e pai exemplar. Aquele clássico alvo de elogios e admiração unânimes.

Sua indignação diante de uma decisão equivocada na empresa mostra o alto grau de exigência interna que ele carrega nos ombros, a ponto de fazê-lo chorar copiosamente por horas até chegar ao meu consultório. Não fora nenhuma decisão que o fez perder bilhões, nem mesmo milhares de reais, apenas um erro comum, uma escolha desacertada, um descompasso.

Mas dentro de si, Paulo acredita que não pode errar nunca e que todo valor que tem para os outros está fundamentado sobre a pedra da perfeição. Se não for assim, irrepreensível, não é digno de ser amado. Mas de onde ele tirou isso? Lá de trás, de seus primeiros erros, tentativas, da forma como as pessoas ao seu redor reagiram diante disso e do modo como ele os interpretou.

A melhor analogia é, para mim, um interruptor e a lâmpada.  As situações do nosso dia a dia são nada mais que interruptores que acionam algo muito maior, profundo e de efeito em nossas vidas… Uma espécie de filtro pelo qual percebemos as coisas. Esse conjunto de crenças sobre nós mesmos e o mundo, óculos emocionais, cujas lentes decodificam os eventos da vida a partir de sua distorção, aumento ou diminuição.  São estruturas emocionais enraizadas desde nossos primeiros anos de vida e que, justamente por isso, são tão familiares e conhecidas da nossa psique que se tornam imperceptíveis quando acionadas automaticamente.

Identificá-las é o primeiro passo para fazê-las perder força. Depois disso, o caminho é diminuir sua valência, aprendendo novas formas de enfrentamento a estas sensações tão incômodas. A reestruturação cognitiva é sim possível, novos jeitos de ver e pensar as mesmas velhas coisas, um novo significado àquilo que talvez fora interpretado de forma dolorosa. Novas rotas neurais sendo criadas para dar espaço à manifestação de um adulto saudável, possuidor da capacidade curativa para a criança ferida que, dentro dele, sofre.

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