Essa gosta de sofrer! É o terceiro namorado que a maltrata

EM: 24 de fevereiro de 2017

Essa gosta de sofrer! É o terceiro namorado que a maltrata, é muito dedo podre. Típicas frases daqueles bizarros programas sensacionalistas em que o casal leva seus vizinhos, o cachorro e o papagaio para discutir a relação em rede nacional. Mas também muito presente nos pensamentos “dazamigas” por aí.

Discordo. Ninguém gosta de sofrer. Exceto em raros casos de masoquismo, pessoas em geral buscam o conforto, desejam estar bem e realizadas. O pepino (e dos grossos) é que a psique humana busca o que lhe é familiar, age dentro de campos conhecidos, com sensações já antes experimentadas, buscando desfechos que não lhe tragam muitas surpresas. Então a mulher que, quando criança sentiu-se abandonada pelos pais que se dedicaram integralmente a alguma causa ou pessoa, poderá buscar inconscientemente relacionamentos que lhe acionem tal sensação de ser abandonada, deixada de lado. Sua tendência é procurar um homem casado com outra, que não poderá dedicar-se a ela integralmente, um cara que more do outro lado do mundo e a veja apenas duas vezes ao ano, alguém que a procura apenas quando lhe convém. A dor de não fazer parte da vida, das prioridades desse outro a quem ela ama, lhe é muito familiar, quase um replay dos amargores dos primeiros anos de vida. É lá, onde nossa forma de ver o mundo (e a nós mesmos) é construída, uma espécie de óculos que torna tudo azul, roxo ou verde… Distorce a realidade e nos faz interpretar de forma disfuncional.

Outra, com seu temperamento menos pacato, prefere sequer relacionar-se, a fim de não correr o menor risco de reviver as agruras do abandono. E ainda uma terceira forma de lidar com isso seria a tal mulher buscar apenas homens absolutamente dependentes dela, numa espécie de tentativa de garantir sua permanência e extinguir as possibilidades de ser deixada – tal qual sentiu-se quando pequena. Estilos diferentes de enfrentar a mesma crença interna: sou uma pessoa “abandonável”.

Então numa olhada an passant pode-se achar que elas gostam mesmo é de sofrer, cada uma a seu modo, mas gostam. Não, ninguém gosta. Somos apenas reféns de nossas próprias marcas enquanto elas forem desconhecidas, despercebidas. Ao trazê-las à luz da consciência, elas perdem força. Os “monstros” são nomeados, e num processo de incrível beleza, novas formas de agir e reagir ao mundo são aprendidas. Sem eleger culpados ou levantar defuntos do passado, apenas cuidando do presente e caminhando para dias mais leves e dores mais brandas.

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