De tanto tentar provar sermos diferentes, nos tornamos todos iguais

EM: 2 de dezembro de 2016

De tanto tentar provar sermos diferentes, nos tornamos todos iguais

Personalizado, exclusivo, customizado. Qualquer adjetivo que nos remeta à menor possibilidade de destacar-nos do rebanho faz os olhos brilharem e o bom senso perder voz.

Não ouço aquela música que no fundo eu gosto porque poderão pensar que sou brega. Jamais teria uma calça dessas, porque chique é usar aquela outra. Não vou postar nada a esse respeito porque está todo mundo falando a mesma coisa. Etc etc e etc. Desnecessário muitos exemplos, cada um tem os seus bem vívidos em suas mentes. É essa incrível necessidade de provar que somos diferentes e que, ironicamente, nos torna ainda mais iguais.

A vasta lista do que é popular e o que é raro encarcera vidas, impede relações e hierarquiza valores inclassificáveis. Não há categorias para o ser humano, basta ser. Então o que pode mover tantas pessoas nessa busca incessante por ser único, incomparável, diferente? O medo. Que medo? Esse que te fará não curtir nem compartilhar porque podem pensar que você sofre disso ou daquilo. Ahh, pare com isso enquanto é tempo. Liberte-se da obrigatoriedade de ser impelido a algo a fim de testemunhar tua suposta liberdade. Qual vergonha em ser quem se consegue ser? Que condenação é cabida a quem ousa trilhar a originalidade? Quem te faz tu? Quem viveu tua história, chorou tuas dores, vestiu-se de ti a tal ponto de ser merecedor de ditar o que tens que fazer, pensar e sentir? Ninguém, baby, ninguém.

Toma esse posto que é teu. Assuma teus lastros, reconhece-te em tua história, por mais árdua que seja. E pare! Pare de tentar mostrar o que não te revela. O mundo quer ver o que está aí dentro. Isso sim te faz único, e não a insana tentativa de sê-lo. A benção de poder ser pleno é um bem do nosso tempo, aproveite-a. Fuja do que não reverbera tua essência até que não haja nenhum outro o motivo de não ir, ter, falar, calar, cantar, dançar… de não viver essa vida que é sua e só sua.

Igual ou diferente, eu. Tu. Gente.

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Quando a gente é pequeno tudo parece grande

EM: 25 de novembro de 2016

Foto: frostedproductions

Quando a gente é pequeno tudo parece grande. Uma frase despretensiosa dita pelo dono da casa, num almoço descontraído de domingo. Por outros tantos almoços, ela não me saiu da cabeça.

Belo paradoxo. Quando pequenos éramos tão corajosos, inconsequentes, livres. Nosso olhar infante fazia-nos ver tudo maior, e, antagonicamente,  possível. Pulávamos o meio fio, nos jogávamos destemidamente de cima do beliche sobre uma pilha de colchões, mergulhávamos sem boia, escalávamos árvores.

E então aquele bebê, chamado agora de adulto, vê-se tomado por medos, preocupações e vergonha. A coragem desmedida sucumbiu face à ansiedade e insegurança. Adversidades parecem gigantes, desafios intransponíveis, metas inalcançáveis. “Melhor nem tentar ”, “Deixa pra lá”, “Não era pra mim”. Quem dera a mesma cara de pau do parquinho da praça nos invadisse agora no mundo corporativo. Oxalá a vontade superasse nossas vergonhas e a pureza, a competição.

Em que poderíamos ser mais leves? Como fazermos tudo com mais liberdade , vontade… com mais verdade? Como resgatar nossa coragem? Dar mais espaço à criança dentro de nós é um bom começo. Brincar, chorar, ousar e permitir-se o erro. Esse que nos apavora e nos bloqueia. E se ele vier, rir. Gargalhar se houver a oportunidade. E o mundo nos parecerá um pouco menor. Crescemos.

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Nunca dá certo de dar tudo certo

EM: 18 de novembro de 2016

Nunca da certo de dar tudo certo

A gente está sempre esperando alguma coisa ruim parar ou uma boa acontecer. Parece que nunca, nunquinha da Silva, está tudo bom do jeito que está.  Uma espécie de otimismo ingênuo nos faz crer que em algum momento nossa vida atingirá aquele estado de graça sobrenatural, em que tudo de bom acontece e as dificuldades sucumbem ao som de uma linda trilha sonora e imagens Hollywoodianas, enquanto corremos felizes entre uma imensidão de margaridas brancas. Não vai rolar, honey, não vai. Isso é coisa de comercial de Tv, esqueça.

Nossa vida geralmente está mais pra “Corre Forest, corre!” que para um conto de fadas. Como indignadíssima disse-me uma querida paciente: “parece que nunca dá certo de dar tudo certo”. Bingo! Podemos passar uma vida toda planejando coisas para quando estivermos mais magros, com mais dinheiro, quando arrumarmos um namorado ou nos divorciados. Quando, se… aí então eu poderia isso ou aquilo.

Contar com o ovo no * da galinha, colocar a carroça na frente dos bois e mais uma dúzia de ditados populares ensinam há tempos que o amanhã ainda não temos. Aliás, temos. Hoje é aquele amanhã de ontem no qual desejávamos tanto chegar, mas agora já não o queremos. Nesse meio tempo achamos uma nova qualidade de margaridas para o campo dos sonhos e essas não mais servem.

Ui, que texto pessimista! Posso ouvir bravejos daqui. Ou seria um otimismo e esperança mais maduros?  Daqueles que nos arrancam dessa espera passiva à margem do rio da vida e desmascaram a armadilha da insatisfação eterna. Uma tentativa de aprender a saborear as bênçãos do hoje, enquanto se trabalha para a realização no amanhã. Difícil que só, possível à beça!

O que de bom te aconteceu hoje? Faça uma lista, abra um sorriso. Que tal comprar um bloquinho e anotar ao fim do dia as pequenas parcelas de felicidade que ele lhe trouxe? Chega de esperar que tudo fique bem, saia da margem, mergulhe nesse rio bem aí na sua frente.  Pedregulhos ao fundo, correnteza forte e alguns trechos de águas turvas, mas que com certeza valem a delícia da travessia.

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Lei de Murphy

EM: 11 de novembro de 2016

Lei de Murphy

Ele está uma pilha, há dias espera ansiosamente pelo feedback do médico  com o diagnóstico da esposa querida. Na tentativa de promover uma breve pausa em meio a essa angústia devastadora, um casal amigo os convidara pra uma saidinha. Toparam, parecia mesmo ser o que precisavam. Um drink, uns petiscos de boteco, rir um pouco. A descontração ganhava espaço quando subitamente o bar foi invadido por três assaltantes armados que grosseiramente “jogaram” todos os clientes numa salinha, mantendo-os refém até tomarem o que queriam. Coração na boca, pensamentos horríveis, o medo em cada célula. Minutos que pareceram horas, numa sensação de que o fim chegara. E chegou. Os três acharam o que queriam e se mandaram, enquanto vagarosamente os clientes levantavam-se do chão tentando entender o que aconteceu.

No dia seguinte, ainda à espera do temido diagnóstico, ele me contava o episódio do roubo. “Parece que tudo vai começar a dar errado em nossa vida, a doença [que ainda não existe de fato], o assalto [que graças a Deus não deixou sequelas]… é a Lei de Murphy!”, dizia-me movimentando enfaticamente as mãos numa expressão de desespero.

Sim, ele tinha motivos suficientes para estar aflito e acreditar que sua felicidade parecia ruir. Quem pensaria diferente diante da ameaça de ter o amor da sua vida gravemente enfermo? Seus medos eram legítimos e mereciam respeito, mas somente acolhê-los o manteria na posição em que estava a da Catastrofização. Parece um trava línguas, mas é na verdade uma das mais recorrentes distorções cognitivas que apresentamos. Aquela tendência a imaginar sempre o pior desfecho possível para as situações, com uma quase certeza de que a dor será intolerável, “vai acabar comigo”.

Esse é só um dos tantos pequenos “desvios” tomados por nossos pensamentos que os fazem não funcionar bem, serem disfuncionais, improdutivos.  Desvios estes que certamente você conhece muito bem, se não por seus nomes técnicos, pelas terríveis sensações que desencadeiam. Eu também, todos nós.  Estes pensamentos disfuncionais nos invadem tão rapidamente que não somos capazes de interceptá-los, são intrusivos e ironicamente familiares, ou seja, nos trazem coisas e ideias já conhecidas em nossas emoções e que, exatamente por esta razão, são facilmente “comprados” pela nossa psique.

A grande notícia é que ao conhecermos tais distorções é possível identificá-las, e aprender a criar novas rotas cognitivas, “desmentindo” o jeito antigo de ver as coisas. “Ok, o assalto foi terrível, mas passou. Não vou cair na armadilha de achar que tudo agora vai dar errado.” Dá trabalho? Sim, a vida dá! A escolha é como queremos vivê-la. Ter paz apesar das circunstâncias vale o esforço e a coragem que a escolha pela mudança nos requere. Acredite.

 

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Fulano Lattes da Silva

EM: 4 de novembro de 2016

Fulano Lattes

“Ele era todo fofo comigo e no mesmo minuto, um grosseiro com o garçom.” Contou-me uma amiga ao descrever um jantar amoroso (ou que assim, deveria ter sido), do qual ela inteligentemente fugiu às pressas.

Socorro, quanta falta de polidez! Ela que é sabiamente descrita por Comte-Sponville como aquela que precede as grandes virtudes, em um de seus mais belos livros. Nada mais angustiante que presenciar um ser humano sendo perverso com outro. Ou pelo menos deveria nos causar tamanho desconforto a ponto de não permitirmos. Um gari sendo “atropelado” por pedestres que julgam ser mais cidadãos que o varredor de esquinas, um atendente do supermercado recebendo humilhações declaradas pelo cliente que “sempre tem razão” (o mais insano dos jargões), uma professora, um pedreiro, um enfermeiro, motorista, telemarketing…

Veja só que ironia, cá estou eu descrevendo pessoas pelo que elas fazem. Quão impregnados de rótulos estamos, uma dependência. “Aquele advogado, jornalista etc”  Currículo Lattes  anexado a nomes,  como se precisássemos verificar as grandes universidades por trás dos sorrisos,  ou a função exercida pelo fulano na sociedade. Que viagem! A tal “sociedade”- incansadamente citada como se fosse uma entidade extraterrestre- é feita de você e eu, pessoas cuja maior função é ser gente. Oportunidades diferentes, jeitos diversos, mas máscaras à parte, todos iguais.

Tratar cada um com delicadeza e a certeza de que sempre há algo dele a conhecer, é o exercício  diário ao qual deveríamos desafiar nossas mentes. Um retorno  aos primóridos, sem tribos, nem marcas.  E se porventura lhe  acontecer de ter o rótulo analisado, permita-me advertir-lo exatamente como me faço… Muito cuidado Dona Moça(o), o vírus da altivez é rápido e imperceptível, pica num segundo e  viramos zumbis da mediocridade.

Diante de um nariz torto e olhar altivo, tenhamos a grandeza de abrir logo um sorriso farto, a mais pomposa vitrine de um coração compassivo, freesta a esta pobre alma que ainda não percebeu ser a questão tão mais profunda que efêmeros ítens de um currículo. Todos versões criativas de uma mesma natureza,isso somos, então pra que, afinal, tanta dureza? É na diferença que repousa a beleza, e no arrogo, a tolice.

Utópica eu, me reconheço e agradeço. A menos que tudo aqui te pareça ir muito bem, vislumbrar outro planeta menos doente é vital, restaurador. Nos ajuda a manter a mágica da esperança ativa, aquela que gera sonhos e mudanças.

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For free

EM: 28 de outubro de 2016

Pensa coração_for free

Pensa coração_for free

Um sussurro ao pé do ouvido, uma risada gostosa, aquela música boa no último volume, um filme a dois, chamegos, bons vinhos, almoço de domingo, o sorriso de um filho, receber os amigos, uma corrida no parque, a roupa seca ao sol, o cheiro do banho tomado, uma noite bem dormida, a família reunida, um café bem passado, um abraço bem dado, um beijo roubado, o carinho desejado…

Droga, o que que eu vim comprar mesmo? Peguei-me perguntando frente a vitrine de uma loja de malas. Ah, era isso! A minha está estourada e viajo na sexta. Entrei. Comprei, saí.

Esquisito isso de ir a um lugar cheio de coisas que não se precisa, vendidas por gente que não se conhece, para trocar algo por um pedaço de plástico mágico que saca imediatamente uma quantia de dinheiro da minha conta e passa pra deles, os desconhecidos. Bem, já tenho mala. E o resto? Que resto? Tudo aquilo que pulou na mente diante da vitrine? Bem, isso não se compra minha senhora, ganha-se. Nem cartão, nem dinheiro, o pagamento é apenas com um coração verdadeiro. Dá-se, recebe-se e parece sempre ter sido o primeiro. Traz vida, amansa o peito e faz brotar sorrisos, for free.

Dirigi pra casa embebida em meio a tanta filosofia de boteco. Piegas tudo isso, puro jargão, tens razão. Raios, em que capítulo dessa novela perceberemos que tudo é mesmo assim, descomplicado, já explicado? Será só no gran finale – fatalmente já sem capítulos a seguir – a grande sacada em que nos daremos conta de que piegas foi achar que não podia ser tão simples assim?

Pode, e é. Feito Ana Vilela sabia e belamente poetizou, em sua canção, “é sobre ser abrigo e também ser morada em outros corações”. Muito menos do que é demais e mais do que é indelével.

Levei uma mala nova, cheguei em casa com bem mais.

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Topless

EM: 21 de outubro de 2016

Pensa coração_Topless

Pensa coração_Topless

Mulher é bicho sapeca, menina levada, arteira. Até as mais quietinhas, não se engane. Nascemos livres, divertidas, almas risonhas, leves. Chora, sente, ri, briga, afaga, acolhe, insiste, desiste, deseja, sonha, faz e refaz. Intensa, pura, sagaz e corajosa. Uma miscelânea de jeitos, uma salada de sentimentos. É o combo mais completo do universo e, por isso mesmo, a mais rica fonte de contradições.

Cuidamos de todos, mas não marcamos aquela nossa consulta. Atendemos os filhos, o marido, os pais. Batemos aquele papo quilométrico com uma amiga querida que está em apuros no casamento, corremos comprar o presente de aniversário da sogra, planejamos as viagens da família, aquele jantar em casa para os compadres, tudo, providenciamos tudo. Somos incríveis, doces e eficazes. Com os outros, geralmente.

Uma amiga querida costuma dizer que queimamos os soutiens, mas ainda vestimos espartilhos emocionais. Tão verdade. Sem bandeirolas de F ou M, num dos lados de uma suposta competição. Apenas verdade. Em algum lugar de nós, mesmo que bem escondidinho, mora uma menininha que acredita estar sob os olhos atentos de avaliadores com uma prancheta nas mãos pontuando os 1.842 critérios para ser classificada como uma Lady Di.

Aquela que nasceu leve, arteira e tudo que a fazia livre, já não lembra mais que foi assim. As raízes lhes foram apagadas pela lista homérica de coisas a fazer, metas a atingir e modelos de perfeição absolutamente inatingíveis a perseguir. Afinal agora você é uma mocinha.

Mocinhas também dormem, soltam pum, comem e até arrotam. Precisam de tempo para fazer nada, pensar em nada e não ter que providenciar nada para ninguém além dela mesma. Mocinhas são gente, oras bolas! Esse show de Truman tem que acabar.

Tome tento, querida, arranque logo esse espartilho e sinta a brisa no peito te convidando pra dançar. Arrisque-se na liberdade de ser sem tantos parâmetros. Mande as metas à m de vez em quando e permita-se merecer o bem que a vida tem.

Que tal um topless? Comece marcando aquela consulta.

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Identidade de gênero e a lavadora

EM: 14 de outubro de 2016

Identidade de gênero e a lavadora

Outro dia ouvi que lavar roupas em meio à manhã de uma segunda feira é coisa de mulher. Não ria, é sério. Minha rotina é bastante dinâmica, nem todo dia vou ao mesmo local de trabalho, mas trabalho todos os dias em algum lugar, inclusive em casa. Segunda, em especial, não vou ao consultório como nos outros dias, dedico aquelas horinhas voadoras a uma consulta médica, aos afazeres da casa ou uma daquelas coisas chatas que sempre temos pra resolver na rua.  Numa dessas animadas correrias matinais de segunda, tive a surpresa de estar sem energia em casa – fruto de uma batida de carro num poste próximo. Corri pro celular, a fim de checar minha lista de compromissos do dia, torcendo não ser justamente o da consulta médica marcada há tempos. Mas algo me dizia que era!

Entretanto, antes que a abrisse,  fui surpreendida por um daqueles avisos saltitantes que brotam em nosso celular. Era um recadinho fresco no grupo de whatsapp do condomínio em que moro. Um dos vizinhos, empolgado, dizia que as mulheres do prédio estavam descansando naquela segunda sem luz, e as lavadoras de roupas, sossegadas.

E não, esta não é uma crônica feminista. Não por ser contra, nada disso. Apenas o desejo de que ao menos meu texto tenha a liberdade de ser apenas um texto, sem rótulos, já que ainda não aprendemos a fazer isso com pessoas.

Voltando ao vizinho, confesso que pensei em sugerir gentilmente que o tal silêncio das máquinas fosse adotado por ele (popularmente conhecido como cala a boca), mas decidi seguir meu dia, afinal precisava saber da consulta. Tudo averiguado, quando uma sutil resposta é dada ao querido vizinho. Era meu esposo, que bem humorado digitava: “Mulheres descansando? Ou homens, já que as tarefas são divididas e se caiu no nosso dia, nós é que vamos descansar! Nosso caso, sortudo! Hehe” E a mulherada do grupo, animada comentava. Sorte a minha, sorte a dele. Não achamos que aparelhos reprodutores definem pessoas, o que elas fazem ou o que querem. Pessoas são definidas por seus sonhos, suas histórias, seus sorrisos e dissabores. Por sua capacidade de amar e ser amado, sua generosidade, sua missão nesse mundo carente de gente que pense além dos seus muros. As obviedades são tão grandes que nem precisariam ser repetidas, mas aí vai: “se os dois trabalham fora, os dois devem trabalhar dentro”. Simples assim não é?

A propósito, hoje é segunda e estou aqui escrevendo para a Revista Viver,  ao som da lavadora. Uma pequena homenagem à multifacetada feminilidade e à masculinidade… à humanidade!

Ps.: Minha intuição estava certa, era dia de consulta. Cheguei atrasada, mas de alma – e roupas – lavadas.

 

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A coragem de ser imperfeito

EM: 7 de outubro de 2016

A coragem de ser imperfeito 2

“Treine enquanto eles dormem, estude enquanto eles se divertem, persista enquanto eles descansam e então viva o que eles sonham.” – Li agorinha num meme por aí e confesso que, ao invés de sair correndo eufórica em busca dos mais incríveis objetivos do mundo, senti foi uma enorme preguiça diante de tanta bobagem.

Quando eles estiverem treinando, estudando e persistindo você pode estar dormindo, se divertindo, descansando ou tomando um cappuccino na padaria da esquina enquanto ouve um grande amigo, e daí? Pode ser apenas uma questão de fuso horário ou simplesmente porque essa era a coisa mais importante a fazer naquele momento, embora outros estejam fazendo outro milhão de coisas. Uma hora dessas será você quem as estará fazendo, e eles dormindo, isso se chama vida e individualidade. Não há nenhuma superioridade de uns em relação aos outros por aquilo que fazem ou deixam de fazer.

“Em relação”, aliás, é a mais genuína expressão do comparativo que fazemos o tempo todo,  do jeito errado. Quando amadurecemos um pouquinho logo percebemos que as duas colunas da tabela comparativa deveriam ter sido ocupadas a vida toda por uma única pessoa: você mesmo. Esqueceram de nos avisar que a grama verdinha, brilhosa e sem qualquer matinho do vizinho é na verdade sintética. Todos temos nossas ervas daninhas, uns buracos, e de tempos em tempos, uma praga horrorosa.

O ponto mais intrigante da falácia humana é a insistência em querer ser perfeito – e não se achar nunca. É a barriga grande,  a casa que não tá boa, o trabalho que paga pouco, a porcaria de mãe que eu me acho, o péssimo cônjuge que tenho sido. A ajuda que não dou, a viagem que não fiz, o dinheiro na conta que não tenho. Nunca somos suficientemente bons.

Brené Brown fala lindamente sobre isso em seu livro, que inspirou o título deste texto, ao dizer que ao assumirmos nossa história, nos tornamos hábeis para terminar de escrevê-la. E, da mesma forma, se a enterramos, nos fazemos seus reféns.  Vejo isso dia a dia em meu consultório nas belas histórias de superação, mudança, aceitação. Pessoas que compreenderam o valor de sua própria história na construção de quem hoje são. Acolheram suas tragédias, perdoaram-se pelas que a outros causaram e, principalmente, deixaram de negá-las. E ao reconhecerem-se vulneráveis, paradoxalmente viram-se fortes, capazes de gerar vida onde havia dor.

Que bom pra eles que correm, estudam e persistem. Que bom pra você que faz aquilo que é capaz de fazer. Desafiando-se sempre, claro, mas valorizando também suas pequenas vitórias. Admirando e tendo a outros como um bom modelo a seguir, mas respeitando sua caminhada, seu jeito de ser, sua pessoa. Ter metas, sonhos e objetivos sim, mas sendo absolutamente honesto e gentil consigo mesmo no caminho para atingi-los.  E, esquecendo-se um pouco dos super-mans e wonder-womans midiáticos, ter a coragem de ser imperfeito.

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Chore querida, chore

EM: 30 de setembro de 2016

Pensa coração_Chore querida

“Engole esse choro, menina!” – quem nunca ouviu quando era criança?

Ouvimos todos nós hoje quarentões, cinquentões e por aí vai.  Algumas funcionava, engolimos lágrima a lágrima, noutras não. Graças a Deus por essas, nas quais a dor da ralada no joelho era maior que o respeito à bronca do pai. Elas nos ensinaram a chorar, aulas práticas de como dar vasão ao sentimento. Como eram valiosas, e mal sabíamos! Quase uma especialização em sabedoria humana, inteligência emocional  e auto gerenciamento. Termos da moda atual pra  explicar o antigo, o velho e bom (embora soe paradoxal), chororô.

Lembrei disso ao ler um e-mail que recebi esta semana… Uma mulher de meia idade me escreveu em busca de alento para a dor avassaladora da perda de sua mãe há poucos dias. Desconheço, graças a Deus, tal angústia. Mas posso supor o quão dura ela é. Suas poucas palavras denotavam um vazio tão profundo que me emocionei, ainda que sem conhece-las – mãe e filha. O que se pode querer num momento desses? Quais palavras poderiam lhe abraçar a ponto de trazer um pouco de paz? Nenhuma, logo achei a resposta em mim.  “O que faço para lidar com essa dor?” Chore querida, chore! É tempo de pranto, de sucumbir, tempo de recolher-se no luto de alguém que lhe deu seu tempo, sua história,  sua própria  vida. Nada, nesse momento, pode honrá-la mais que as lágrimas da falta, a tristeza da partida.

Superar, reagir, viver plenamente para alegrá-la… tudo isso é lindo, mas ao seu tempo. Hoje não. Dê espaço ao sentimento que te invade, ele é genuíno, legítimo. Nada mais faria verdade em você. Só assim a dor da saudade dará, dia após dia, espaço para os risos das doces lembranças ao lado da mãe amada. Tão simples e óbvio pareceu-me aquilo que quase me envergonhei ao clicar no send. E tão breve quanto minhas linhas foi sua resposta, emocionada: “Obrigada por me dizer isso. Sou a irmã mais velha de quatro, e todos me diziam “Você precisa ser forte, elas precisam de você agora.” Obrigada, muito obrigada, por me dizer “chore”, nesse momento é tudo que quero e consigo.”

Choro e fraqueza. Vulnerabilidade e vergonha. Será que foram colocados por engano naquela lista interminável de sinônimos do nosso 2° ano? Por que seguimos acreditando que não podemos sofrer, sentir, lamentar? Estar triste é quase ofensivo ao mundo do empreendedorismo, realizações e flashes. Babozeira meus queridos, não há sucesso maior que um alma que sabe amar, a si e aos outros, na alegria e na dor.

“ Para tudo há uma ocasião, e um tempo para cada propósito debaixo do céu (…) tempo de chorar e tempo de rir, tempo de prantear e tempo de dançar…”* diz as Escrituras Sagradas.  – respeitar cada tempo e sua exata medida é  ter a coragem de reconhecer-se gente.

E quando a vida te mandar engolir o choro, avise-a que aquela criança cresceu, e hoje você prefere chorar as feridas abertas, para que um dia sarem de verdade.

*Eclesiastes 3.1e 4

 

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