Sapato velho

EM: 10 de fevereiro de 2017

sapato velho

Crescer dói. Aos ossos e à alma. Deparar-se com o fato de que há tempos agimos de forma disfuncional, talvez até prejudicando a nós mesmos, ah dói. Aquele jeito de se posicionar nos relacionamentos, a mania de doar-se demais ainda que recebendo pouco afeto em troca, o quase vício em ressuscitar o passado, numa tentativa que parece ser a de criar problemas aonde não tem.

Crenças internas como a de não ser merecedor de tudo de bom que a vida tem lhe dado, um autoconceito ferido pela ideia de ser amado apenas se agradar a todo tempo, a sensação sufocante de que se errar será rejeitado e abandonado. Tantas podem ser as razões que nos levam a estes comportamentos autossabotadores. E o momento em que constatamos sua presença de longa data em nossas vidas, sem dúvida não é nada doce. A sensação de ter tempo, pessoas e relações perdidas por conta “desse seu jeito” é , talvez, o mais desagradável estágio de um processo terapêutico, embora também seja o mais libertador deles. Assim e somente assim, pela coragem de nos olharmos sem máscaras é que a mudança encontra espaço. Quando a dor de permanecer como e onde se está é maior que a dor da sinceridade consigo mesmo, da observação corajosa dos seus atos e pensamentos… a dor da transformação.

Nossos velhos modos de fazer e ser já são tão nossos, que nos integram, fazem parte. “Eu nem sei ser diferente” é uma das frases mais sinceras que brota junto às lágrimas. O medo do novo cobrando seu preço, uma tentativa da nossa própria psique em nos proteger, mantendo-nos confortáveis naquilo que já é conhecido , familiar. Um sapato velho, já adaptado às joanetes e pisada torta. “Nem sinto quando estou com ele”, mas talvez não lhe funcione mais. É possível passar uma vida todo a calçá-los, é uma escolha. Apenas é preciso ter a certeza de que eles sempre nos levarão aos mesmos lugares.

Que lugar é esse aonde você quer estar? Quais ajustes são necessários nesse caminho para que realmente chegue? A vida por vezes pede uma parada no sapateiro, e a ousada honestidade consigo mesmo para reconhecer-se carente de “consertos”.

Dói, mas não pare. Valerá a pena.

 

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Boi pensante

EM: 3 de fevereiro de 2017

Boi pensante 2

Lembro bem da angústia que sentia na adolescência por querer ser como todas as outras meninas. Vestia as mesmas roupas que elas (mesmo que o modelito não favorecesse meu biotipo), falava as mesmas palavras, ia aos mesmos lugares. Sempre seguindo o fluxo que sei lá quem ditou pra tantos outros seguirem. Uma tentativa desenfreada de fazer parte daquele monte de gente igual, coisa que nunca conseguia – e pelo que hoje dou graças a Deus.
A árdua tarefa de ser quem se é. Privilégio não só dos teens, mas de cada um de nós, independentemente de mais ou menos anos vividos. Os novinhos confessos integrantes da boiada, nós, chamados adultos, iludidos de que dela já nos desgarramos.

Será? Seguimos usando as mesmas cores de sempre, tomando o mesmo café, fazendo o mesmo trajeto para o trabalho, ouvindo as mesmas músicas, comendo as mesmas comidas, pensando as mesmas coisas dos mesmos velhos jeitos. Sem nunca darmos uma mísera chance ao novo, nos recusamos a ouvir aquele cantor que acabou de surgir, ler o livro do momento, experimentar um restaurante diferente… Mudar a forma de pensar. Afinal, é preciso manter a aparente liberdade.

Liberdade tal perdida lá trás, quando nos vimos enquadrados ao sistema, adequados aos jeitos, formatados às convenções poucos anos depois de termos nascido peladinhos, desencanados com a opinião alheia, autênticos nas atitudes, livres e desenformados. Muito antes de sermos legalmente maiores nos tornamos insossamente “normais”.

“Ela era antes uma mulher que procurava um modo, uma forma. E agora tinha o que na verdade era tão mais perfeito: a grande liberdade de não ter modos nem formas.”, escreveu Clarice Lispector. Motivada por sua sobriedade, resta-me apenas desejar que tenhamos a porção diária de coragem para deixarmos de ser quem querem que sejamos, por não suportarmos a ideia de não nos quererem, se formos quem realmente somos. 

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O xampu proibido

EM: 27 de janeiro de 2017

xampu proibido

A mais antiga de minhas manias é encher as mãos com um belo punhado de xampu e fazer aquela espuma gostosa pelo corpo, até vê-la desaparecer em meio à água do chuveiro, ao final do banho. Nem tento burlá-la, inútil. Quase uma obsessão.

Tentei descobrir explicações mais profundas para isso, mas a única pista que encontrei foi um episódio da infância, quando ao tomar banho na casa de uma amiga, vi-me numa bela enrascada: Já peladinha para entrar no banho depois de um dia de praia, não encontrava de jeito algum o bendito sabonete. Puff!! Onde teria ido? E agora, vestia tudo de novo? Gritava na porta pedindo ajuda? Mas era a “casa dos outros”… aquela sobre a qual minha mãe tanto me advertira: “Comporte-se bem, minha filha… não faça isso, não faça aquilo…”. Não ia dar.

Tratei de entrar logo no chuveiro e encher a conchinha feita de mãos com o delicioso xampu da dona da casa, afinal, como iriam descobrir, né? Pois bem, num daqueles incríveis misteriosos poderes dos adultos, descobriram! Levei uma bronca daquelas enquanto pensava uma única coisa: “Minha mãe me pega”, até que rimos à beça ao achar uma enorme linha de espuma em minhas costas, a fatídica pista que me delatou.

Mas nada me faz deixar de crer que recebi naquele dia rogou-me o mais cheiroso dos encantos: “Que você faça isso com o seu xampu, todos os banhos de sua vida!”, seguida de uma gargalha que soltava bolinhas de espuma. Definitivamente, só pode ser.

Tirar o sapato que reduz seus 5 dedos a um, em meio àquela festa “elegantérrima”, gargalhar quando der vontade, dar um beliscão no bumbum do seu namorado enquanto andam no shopping (etc)… O encanto dos proibidos.  Humm, melhor vestir-se de novo e pedir um sabonete. Será? Que nada, sai dessa vida! Desde que não desrespeite as leis ou a quem está por perto, abra mão de tantos protocolos – aliás, abra a mão e a alma! Sabe-se lá quando (e se) teremos uma nova chance para tomar esse banho bom, ver seu namorado vermelho em pleno shopping ou para devolver a integridade aos seus pés em meio a uma festa. O tempo urge e a espuma se esvai. Agarre logo esse xampu e seja feliz!

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Gaiola dos sonhos

EM: 20 de janeiro de 2017

GAIOLA DOS SONHOS

Paz com suas próprias dúvidas, medos e incertezas. Sem dúvida é este o maior entre os sinais da maturidade, esta capacidade de abandonar o tranquilo e confortável lugar das certezas. Aprender que se lá não havia desgastes, tampouco muitos avanços. Reconhecer-se menos carente de coisas e gentes que te proporcionam segurança e, finalmente, encontrá-la em si mesmo.

Mas não é moleza não esse lance, disse em meio a suspiros um querido amigo. O medo que afoito grita a fim de boicotar voos, fixar âncoras e trancafiar ousadias em gaiolas seguras – fazendo uso da belíssima analogia de Dostoiévsk, em “Os Irmãos Karamazov”.

Há quanto tempo te falta tempo para ser a pessoa que você queria ter sido? Por quantos pores do sol já não suspiras ansioso pelos planos do dia seguinte? Quantas são as páginas em sua agenda sem algo novo que te move visceralmente? Cadê você? Nos perdemos quando os sonhos se esvaem, sentimo-nos distantes de nós mesmos, emocionalmente entubados.

Aí mesmo, na gaiola, pegue um papel e escreva alguns daqueles projetos guardados que todos temos. Noutro, registre aquilo a que você mais tem dedicado seu tempo. Quanto de você tens dado a eles? Isso é o que eles mereciam de verdade? São realmente legítimos os motivos para tê-los abandonado? A coragem de encarar a veracidade de nossas razões enfraquece nossas desculpas.

Compare as listas e, no melhor estilo Harry Potter, jogue-se contra as grades do medo bem aí na sua frente, elas são fruto de sua própria mente, irreais. Arrisque-se nesse mundo de incertezas e, paradoxalmente, de novos e incríveis ventos. Bom voo!

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A prodigiosa superioridade do glitter

EM: 13 de janeiro de 2017

A prodigiosa superioridade do glitter

Eu “gostio” do senhor e da sua senhora porque vocês são pessoas simples, disse ao meu marido, o rapaz que sempre lava nosso carro. E por que não seríamos? – Logo pensei eu, que esperava para entrar no carango agora cheirosinho pós dias de praia, areia e afins.

Acho fofo quando vejo alguém normal sendo normal, especialmente em dias de holofotes em que alguns normais insistem em crer serem excepcionais. É a roupa que usam, a viagem que fazem, um conhecimento que dominam ou o corpo que têm, qualquer coisa normal é por estes interpretada como um grande sinal de sua prodigiosa superioridade, face ao resto do pobre mundo de pessoas terrivelmente… Normais.

Gosto das palavras de Walter Riso em seu livro “A arte de ser flexível”, quando define a modéstia como a consciente da própria insuficiência. Que definição simples, clara. Que atitude rara. Estimar-se na medida justa parece o desafio do século numa cultura que privilegia a soberba e a chuva de pétalas em si mesmo – preferencialmente acompanhado de glitter e fragrância importada de rosas.

Autoestima virou o termo mais banalizado do vocabulário mundial e tragicamente confundida com babaquice e “metidismo”. Voltemos, o caminho não é esse. Como bem diz Riso, não fomos educados para aceitar nossa própria ignorância e insuficiência, então diante da possibilidade de as termos expostas, alguns de nós acionam mecanismos de defesa clássicos, promovendo a si mesmos numa tentativa egocêntrica de converter-se no epicentro do cosmos. Quanto desgaste.

O convite ao retorno é diário e generalizado. Voltemos à simplicidade de sermos factíveis de equívocos e à coragem de sermos imperfeitos (Leia também este texto). Sem tanto glitter e fragrâncias, só cheiro e cor de gente (graças a Deus) normal.

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Ano novo, sofá novo

EM: 6 de janeiro de 2017

Ano novo sofá novo

O ano novo começou e nova também é aquela listinha básica com nossos objetivos, metas e sonhos. Atitudes que precisamos mudar, hábitos que queremos adquirir… Coisas, pessoas, jeitos, formas. A casa quase sempre está lá, com um posto cativo na tal lista, ano após ano. É aquela parede que queremos derrubar, a janela que sonhamos em trocar, o piso da sala e tantas outras pequenas reformas sem as quais nosso cantinho parece inapropriado à nossa presença. O mais interessante é que em pouco tempo, dadas às mudanças das tendências arquitetônicas ou do seu estilo pessoal, pode ser que você queira justamente recolocar aquela parede que outrora parecia um atrapalho… Mudanças efêmeras.

Mas você há de convir que os melhores (e mais desafiantes) itens de tal lista anual passa longe da arquitetura e da decoração… Têm a ver com mudanças não de móveis ou de estilo, mas sim de pensamentos, atitudes e comportamentos. Quando incluímos em nossos tópicos coisas que queríamos dizer às pessoas que nos cercam, atitudes que queremos deixar de ter mediante determinadas situações, pensamentos que decidimos não alimentar, gestos que desejamos repetir em prol dos que amamos… Aí sim, nossa lista traz verdadeiras propostas de mudança.

O ano está só começando. A maior parte de nós está super relaxada após um período gostoso de férias, uma boa viagem e muita diversão. Tudo parece mais suave que no final do ano passado e o stress do dia a dia ainda não nos aborrece tanto. Mas o tempo voa, e com ele os dias se tornam mais pesados, abarrotados de decisões a serem tomadas na empresa, em casa, na escola dos filhos… A sensação que temos é a de que o reservatório de “pepinos a resolver” atinge seu limite máximo muito antes das próximas férias. Ah, as férias… Nelas os amigos parecem tão íntimos, quase da família! E em poucas semanas, o máximo que conseguimos é dar um “oizinho” via facebook, afinal estamos todos na “correria”. As gargalhadas se tornam mais escassas e a tolerância diminui drasticamente… Com o cônjuge, com os filhos, consigo mesmo. Já não sorrimos com tanta facilidade, afinal “não temos tempo pra nada”. A vida segue o fluxo e, quando nos damos conta, dissemos aquilo que não queríamos ao nosso filho pequeno, que se aproximava em busca de carinho no final do dia. Ou não dissemos aquelas palavras carinhosas ao nosso(a) esposo(a) antes de dormirmos exauridos pelo cansaço. “Estouramos” com o vizinho, gritamos com a caixa do supermercado, ignoramos o deficiente visual que tenta atravessar a avenida movimentada… Mas o importante é que estamos batalhando para ticar cada um dos itens da nossa lista de ano novo.

Quebrar paredes e trocar o piso requer pouco além de dinheiro e esforço físico. Destruir as barreiras que nos impedem de amar com propriedade aqueles a quem temos, romper nossos próprios paradigmas e substituir velhos hábitos danosos por belas atitudes, certamente nos custará um pouco mais. E então, como está sua lista pra 2017? Se o elogio ao novo sofá da nossa sala nos satisfaz, sigamos em frente. Caso contrário, é hora de revermos nossas prioridades. Ainda está em tempo, sente no velho sofá e refaça sua lista!

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Piteuzinho lindo

EM: 30 de dezembro de 2016

Pitelzinho lindo 2

Entregue às delícias do nordeste, a empolgação tomou conta e aventurei-me à uma praia naturista. Sim, fiz isso. E gostei!

Momentos de tensão, um bom drink pra fortalecer a coragem e peito, muito peito. Literalmente ou não, aqui cabe uma interpretação personalizada. Bem, sem mais detalhes técnicos, lá fui eu a Tambaba, nos arredores de João Pessoa.

A distância entre o pedaço “normal” da praia e o incrível paraíso aonde todos são livres, é separada por um paredão de pedras que, a cada degrau de escada descido, emoldura o desfile de corpos in natura. Não, nada de insinuações, risos ou cantadas, cada um sendo si mesmo num ápice de liberdade e paradoxalmente, de simplicidade – afinal foi assim que nascemos.

Um pouco antes da minha aventura a la Éden, corria eu cedinho na orla de Jampa (Se São Paulo é Sampa, João Pessoa é Jampa) quando um ciclista animado disse em bom tom ao colega da bike ao lado “Eita , mas que pitéu!” (leia com sotaque nordestino, por favor). O elogio fofo era pra mim e não me senti agredida, ao contrário, achei foi divertido o termo na entonação quase cantada do morador local logo as 6h da matina.

Sua voz, aliás, foi o que me veio à mente quando contemplava uma senhora toda desprendida de padrões, medidas e cobranças caminhando pra lá e pra cá na praia naturista. A cada poucos passos, erguia os braços e respirava fundo fechando os olhos face ao mar, parecendo fundir-se com toda aquela obra de Deus. Linda, um pitéu! Por reconhecer-se única e bela a ponto de ser, em Tambaba ou em qualquer lugar do mundo, ela mesma.

Voltei pro Paraná, me achando ainda mais piteuzinho do que fui. Experimente querida, olhe aí num bom espelho e se dê um belo elogio, no sotaque que quiser, com o termo que preferir. O amor próprio não tem idiomas.

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Ondas de Natal

EM: 23 de dezembro de 2016

Ondas de Natal

Polêmicas da uva passas e do famigerado álbum da Simone sob controle, o Natal costuma ser um tempo de paz e harmonia. Parentada reunida, comilança, crianças correndo pelo jardim, presentes, risos, lágrimas… amor em forma de sinos batendo na alma. Papai Noel, o pobre, derretido naquela roupa enorme e já exausto de tanto distribuir beijos a essa altura do mês, amigo secreto, o especial do Roberto Carlos na TV… tantas lembranças de família em meio às bolinhas do pinheirinho da sala. Há quem jure não gostar, eu resisto a acreditar.

A vida, no fundo, é feita de ciclos e nossos pequenos rituais de tempos em tempos marcam seus finais, enquanto novos nascem. É o balanço do mar… ondas que tão logo desaparecem quebradas à beira da praia, recuam para, junto às tantas águas, compor uma nova; Talvez maior, talvez mais bela, mas sempre única. Aquelas moléculas de água que ali se reuniram naquela posição, formando aquele desenho específico, provavelmente nunca mais se repitam nos tantos mares mundo afora.

Pai, mãe, esposo e esposa, filhos, manos e manas, cunhados, sobrinhos, “aquele primo que nunca mais viu e vai chegar com fome pra comer todo o pernil” (como bem descreve a canção da banda Panela), a vó e o vô, titias e os titios e quem mais por aí estiver… moléculas dessa nossa onda particular. Um espetáculo sem replay que a vida está a nos presentear. Que loucura descabida seria dele não aproveitar. Moléculas se atritam por vezes… coisas da onda chamada vida. Releve, pondere, perdoe, acolha. O espetáculo é maior que um pequeno ato. E em poucos anos você estará bem aí, comendo uva passas enquanto relembra dessas tantas histórias junto a novos personagens que essa onda traz e já sem alguns que ela terá levado.

Sorrisos largos, piadas novas, causos, contos e encantos seja o que o Natal traga a ti e a mim, fazendo brotar esperança aonde já não havia e fé no caminhar. Que seja mesmo feliz o nosso Natal!

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Não desista de ser bom

EM: 16 de dezembro de 2016

Não desista de ser bom

Pela primeira vez peguei um uber. Carro limpo, viagem tranquila, tudo certo. Apenas um probleminha: dentro dele havia uma pessoa desesperançosa. Alguém que perdeu seu emprego numa empresa que gostava, que viu seus sonhos irem pelo ralo numa chamada à sala do chefe, um pai, esposo, um homem triste e sem esperança. Crise, cortes, falências… os projetos de um futuro melhor têm sido assolados pela realidade amarga de tempos difíceis bem embaixo do nosso nariz.

Já não fora suficiente tal infortúnio, ao ligar o rádio nas tantas “corridas” com passageiros, o já desolado homem ouve mais uma dúzia de barbáries, bandidagens e tristezas. Árdua essa tarefa de manter-se crendo que tudo irá melhorar, inegável. A espera por esse tempo acaba, e tantos se (des)esperam. A esperança se vai e a desesperança vem dando lugar à tentação do desistir.

De que adianta ser tão honesto? Qual a vantagem em não se deixar corromper? O que eu ganhei fazendo tudo direito por tantos anos?  – perguntava o motorista enquanto nos levava ao restaurante. Não sei exatamente o que ganhou, disse eu a ele, mas o que sei é que se assim você não tivesse sido, teria perdido a si mesmo. Não podemos desistir de ser bons.

Não desista de devolver o troco a mais, de parar para o pedestre atravessar, de olhar nos olhos de alguém que sofre e de ajudar um estranho que lhe pede informação. Não desista de fazer uma gentileza, de sorrir para uma criança ou ajudar um idoso com suas sacolas pesadas. Não desista, por favor não desista, de não fazer o que todo mundo faz mesmo sabendo estar errado, de não burlar a lei com algum jeitinho, de não sucumbir à tentação da malandragem.

Não desista de ser aquela pessoa que você acredita que todos deveriam ser. De ensinar seu filho a bondade, apesar da dureza do mundo. Não desista de acreditar naquilo que fazia seu coração acelerar na juventude, de sonhar com os ideais mais lindos que já povoaram sua mente, de viver a vida que encheria o mundo com mais amor. Sim, está difícil acreditar na humanidade, mas ela somos nós! Você acredita em você?

Que nossa marca não seja a desesperança e o esperar por dias melhores se encha nossos corações e dias de ações vivas que desses sonhados dias nos aproximem. Continue, podemos sim mudar o mundo. Desci do uber, o motorista agradeceu e sorriu.  A esperança subiu.

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Uma taça de veneno, por favor

EM: 9 de dezembro de 2016

Uma taça de veneno, por favor

“Veneno é a única coisa que só funciona se você aceitar beber”, ouvi numa entrevista outro dia. E quem em sã consciência aceitaria?  O que nos faria então provar deste líquido mortal, se já sabemos seus efeitos? Talvez o desejo de provarmos ser imortais, inatingíveis, imunes. Ou, na pior das hipóteses, uma concordância velada com o intuito malévolo assassino.

Não, não faz sentido. Quem daria razão ao seu assassino? Apesar do contrassenso, nós, todos nós. Fazemos isso cada vez que damos espaço àquilo que de mal dizem a nosso respeito, fofocas, disse-me-disse, tititi etc. Se aquilo que é dito te fará tanto mal a ponto de culminar em sua própria morte, não beba!  Refute, rejeite, ignore, não acolha. Sempre haverá alguém para fazer críticas infundadas e aumentar um ponto no conto. É o cálice de cicuta estendido ao alcance da sua mão. Quer tomar? Não? Então não o pegue! Deixe a fofoca com quem a cria, procria, recria – tão criativos os fofoqueiros, incrível! O tamanho dela será exatamente aquele que você permitir a ela construir aí dentro. Não beba o cálice. Deixar de  alimentar o monstro o faz minguar.

A necessidade de uma pessoa disseminar algo ruim (verdade ou não) sobre outra só revela seu incômodo com o enredo alheio diante da monotonia do seu. E do outro lado do pêndulo, a incapacidade de ignorar e de não se defender diante de uma acusação caluniosa faz nítida a carência excessiva de aprovação e reconhecimento.

Seja aquele que serve ou o que bebe, cuidado. Veneno é sempre veneno.

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